Ir para o conteúdo principal

O Museu

O MIAA é a casa das memórias, mas também dos olhares sobre o futuro
Luiz Oosterbeek

O MIAA - Museu Ibérico de Arqueologia e Arte está instalado no Convento de S. Domingos, edificado no século XVI, peça central do património edificado da cidade de Abrantes. Os acervos municipais de arqueologia e arte do Município de Abrantes e da Coleção Estrada, bem como a obra da pintora Maria Lucília Moita, aguardavam um lugar digno para se tornarem de fruição pública. Para a concretização desse bom encontro, o edifício foi reabilitado para funções museológicas, através de um projeto do arquiteto Carrilho da Graça. O MIAA ocupa parte significativa do antigo convento, que já albergava a Biblioteca Municipal António Botto, numa ala requalificada em 1993, com projeto do Arquiteto Duarte Castel-Branco.

As exposições permanentes, com projeto de museologia de Luiz Oosterbeek e Fernando António Batista Pereira, concebido em estreita parceria com o Serviço de Património e Museus do Município, estão organizadas em oito núcleos: Escultura Romana; Pré-História; Idades do Bronze e do Ferro; Antiguidade; Tesouro; Arte da Idade Média e Idade Moderna; Escultura da Idade Média e do Renascimento em Abrantes; Pintura de Maria Lucília Moita. A museografia e o design de comunicação são obra da P-06.

A deslocação pelas salas com exposições permanentes permite revisitar múltiplas culturas e civilizações, através do contacto com artefactos e obras de arte da Pré-História à Época Contemporânea. O arco temporal coberto pelos acervos expostos no MIAA, resultantes desde a ação dos primeiros hominídeos até ao presente, faz deste um espaço expositivo único a nível nacional.

No MIAA conta-se muito do que foi a história da ocupação humana na região. Os acervos regionais encontram-se expostos num diálogo constante com peças provenientes de contextos mais abrangentes, que cobrem a Europa, a bacia do Mediterrâneo e diversas civilizações antigas do continente asiático. Reconstituem-se, deste modo, contextos históricos que permitem ao visitante uma melhor compreensão do passado.

O cruzamento do discurso da arqueologia e património histórico com a arte contemporânea assume-se como porta que liga o passado com o presente e que abre caminhos para o futuro. Em duas salas do MIAA são exibidas, consecutivamente, exposições temporárias com obras da Coleção de Arte Contemporânea Figueiredo Ribeiro, que se encontra à guarda do Município de Abrantes.

As restantes salas de exposições temporárias destinam-se a acolher exposições diversas com peças/obras relevantes.

Traduzindo o espírito do lugar, no claustro conta-se a história do Convento de S. Domingos, bem como a história de Abrantes. Bem-vindos ao Museu Ibérico de Arqueologia e Arte!

Os prémios

Museu do Ano 2023 - APOM
No dia 26 de maio de 2023, a Associação Portuguesa de Museologia (APOM) anunciou e entregou ao Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes o prestigiado galardão Museu do Ano. A APOM justificou a escolha "pela junção entre o património cultural arqueológico e a requalificação de um edifício histórico, tornando-o um projeto de grande qualidade na área da recuperação territorial, que muito dignifica o país".

Nuno Teotónio Pereira
O projeto de requalificação do Convento de S. Domingos, para instalação do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte, foi distinguido, no dia 30 de janeiro de 2023, com o Prémio Nuno Teotónio Pereira 2022, na vertente de Reabilitação Urbana de Edifício de Equipamento, do IHRU – Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana. O projeto de requalificação do Convento é da autoria do arquiteto Carrilho da Graça, foi promovido pelo Município de Abrantes e executado pela empresa Teixeira, Pinto & Soares, S.A.

Coleção Municipal

Recolhida desde os anos vinte do século XX, apresenta, entre outros acervos de interesse, uma evolução da escultura portuguesa do século XV ao século XVIII, assente em peças oriundas das seculares igrejas e conventos extintos de Abrantes, com especial relevância para um importante núcleo de escultura sacra em pedra, madeira e terracota, cuja representatividade vai desde o final da Idade Média ao Barroco.

A coleção exposta integra parte do interessante espólio de arqueologia da Coleção Municipal de Arqueologia, proveniente de sítios arqueológicos da área do concelho de Abrantes. Estas peças são oriundas, maioritariamente, de escavação, prospeção ou acompanhamento de obra, constituindo um fundo de potencial interesse para a investigação, tendo em conta os seus contextos bem documentados. Esse manancial de informação foi registado na “Carta Arqueológica de Abrantes”, datada de 2009 e atualmente em atualização.

Existem ainda algumas peças resultantes de achados fortuitos realizados ao longo do tempo e que integravam o espólio à responsabilidade do antigo Museu D. Lopo de Almeida.

Foi sobretudo a partir dos anos 90 do século XX que se iniciaram os trabalhos arqueológicos sistemáticos no concelho de Abrantes, quer através do recém criado Gabinete de Arqueologia, quer através de investigadores que se interessaram pela longa história do território ou recolhidos e estudados por empresas de arqueologia na sequência de obras públicas orientadas por outras entidades.

Coleção Estrada

Os acervos da Coleção Estrada resultam da reunião de peças pelo colecionador João Estrada (1923-2018), através da aquisição a privados ou em leilões. Trata-se de um conjunto alargado de peças que garante a definição de um discurso museográfico que põe em diálogo a história peninsular e do continente europeu com o mundo mediterrânico e com múltiplas civilizações asiáticas.

Nascido em S. Miguel do Rio Torto, concelho de Abrantes, João Estrada desde muito novo desenvolveu interesse pelo colecionismo de peças de arte e antiguidades, que sempre procurou acompanhar com o necessário estudo. Ao longo de mais de 50 anos, reuniu peças de arte, de arqueologia e antiguidades.

Enquanto presidente da Fundação Ernesto Estrada, Filhos assinou, em 2007, um protocolo com a Câmara Municipal de Abrantes, através do qual disponibilizou a sua coleção de arqueologia e arte para que fosse tornada pública por via da criação do Museu Ibérico de Arqueologia e Arte (MIAA). Esse protocolo foi reconfirmado, em 2016, através da celebração de um contrato de comodato entre o Município de Abrantes e a administração da Fundação Estrada. É constituído por cerca de 1500 peças o acervo cedido ao Município, estando atualmente expostas no MIAA perto de metade.

Não se tratando de peças contextualizadas, como acontece em muitas coleções arqueológicas, a estratégia definida desde o início, por acordo entre os parceiros, foi a da realização de um processo de investigação sistemática, constituindo-se uma equipa multidisciplinar de especialistas. Ao longo dos últimos anos, fizeram-se vários estudos das peças, dos quais resultaram vários redimensionamentos do acervo protocolado, bem como a redefinição da museografia e do circuito expositivo.

Como resultado da investigação realizada, iniciaram-se, em 2009, as exposições anuais de antevisão do futuro museu, que tiveram 10 edições, complementadas com a publicação dos respetivos catálogos, que se assumiram como ações promocionais dos acervos das coleções a expor (Estrada, Maria Lucília Moita e Municipal).

Entre 2011 e 2015, realizaram-se, anualmente, as Jornadas Internacionais do MIAA, reunindo em Abrantes investigadores e estudiosos, nacionais e estrangeiros, que trabalharam em áreas relacionadas com os acervos do museu. Dessas jornadas resultou a edição de vários volumes de atas.

Coleção Maria Lucília Moita

Maria Lucília Moita (1928-2011) nasceu em Alcanena, mas tornou-se abrantina de coração, pois fixou-se em Abrantes em 1954, depois de casar. Ao longo de cerca de seis décadas, aqui desenvolveu um itinerário criativo, nas artes plásticas e na literatura.

O seu atelier sempre se abriu a visitas, sobretudo de grupos escolares, que tinham a oportunidade de dialogar com a artista, receber as suas lições e conhecer o seu percurso.

Prima do grande colecionador de arte Anastácio Gonçalves, na sua casa em Lisboa, antigo atelier de José Malhoa, aprende, nas suas próprias palavras, «a ver e entender a pintura com este homem sensível e exigente». Tem as primeiras lições com o mestre naturalista João Reis e forma a sua sensibilidade no ambiente da coleção de Anastácio Gonçalves, face a pintores naturalistas que admira, aí largamente representados, como Silva Porto e Henrique Pousão. A sua obra evolui a par das grandes correntes do século XX, mas sempre na procura de uma linguagem própria. Do naturalismo inicial, às marcas do impressionismo e a um abstracionismo multifacetado, que se expressa em obras que vão da captação da paisagem, da textura, espírito e forma de velhas árvores, às superfícies de muros em ruínas ou à exploração da possibilidade de ver além da superfície, sobretudo na fase duma pintura celular a que Lima de Freitas designou “orgânica”.

Reconhecida pelos grandes críticos, historiadores de arte e intelectuais, Maria Lucília Moita é uma figura maior do paisagismo, da natureza-morta, do desenho a carvão, do retrato, do abstracionismo orgânico, ou do desenho a lápis e pastel a que chamava «poemas a lápis-de-cor».

Publicou quatro livros de poesia, a qual foi simultaneamente expressão e explicação duma “poética da inquietude” que sempre manifestou, quer na poesia, quer na pintura. Está representada no Museu do Chiado, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Museu José Malhoa, Museu de Setúbal e outros.

Esta doação ao Município de Abrantes é um grande serviço à comunidade e resulta da vontade de manter a integridade do seu percurso e da generosidade de, para sempre, o abrir aos outros.

Curadoria
Fernando António Baptista Pereira

Maria Lucília Moita no ateliê em 2009, fotografia de Miguel Simão

Ateliê Maria Lucília Moita

A obra de Maria Lucília Moita musealizada desde 2021, no MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes abriu, agora, caminho até ao seu ateliê, pela mão da sua família. A vastidão da sua produção leva-nos ao arquivo do acervo familiar. A sua obra/ pintura “é uma vida”, como ela costumava dizer.

No MIAA, o núcleo de pintura exposto, constituído por um conjunto de pinturas e desenhos representativos das diferentes fases do seu percurso artístico, proveio da intenção da artista em legar, ao Município de Abrantes, parte significativa da sua obra, tendo em vista a possibilidade da sua fruição permanente.

Ao reconhecido valor artístico, cultural e patrimonial da obra pictórica e poética da artista, soma-se o serviço prestado à comunidade, expresso nas visitas que recebia no seu ateliê, sobretudo de grupos escolares, mas também de jovens que procuravam apreciação sobre os trabalhos que realizavam. Gostava de ouvir os mais novos e com eles criava amizade. Os filhos e os netos de Maria Lucília Moita conhecem o significado que para ela tinha essa partilha, a partilha com os outros da sua experiência artística.

Para manter viva a sua memória, e certos de que este seria o seu desejo, abrem as portas do seu ateliê ao público. Na pequena galeria, ao lado do seu ateliê, onde costumava ter obras expostas, exibem-se agora pinturas de árvores: as oliveiras e as outras. As árvores são, também, uma metáfora da mulher que ela foi. Feitas do essencial e com uma poética que vem de dentro e que as atravessa no tempo. Era assim que as pintava.

O ateliê reflete a sua pessoa e o seu trabalho. É um espaço íntimo. As cores são as da terra. No cavalete, um desenho com fúria de ser acabado, a lembrar um adeus.

Ateliê
Rua Coronel Luís Jorge de Mena e Silva, n.º 76, 2200-305 Abrantes. GPS: 39.460946, -8.205125

Horário

De segunda a sexta-feira. Para marcação: museusdeabrantes@cm-abrantes.pt




A exposição Bailado de árvores

Foi o acaso que determinou que Bailado de árvores, título dado pela pintora a uma obra realizada em 1985, fosse a obra de entrada na exposição, no seu ateliê. As árvores, como tema — as árvores que a pintora tanto amava, e que faziam parte de um tema maior: a Paisagem e a Natureza — tornou óbvio que Bailado de árvores seria, também, o título da exposição.

Bailado de árvores, 1985. Fotografia Gaspar Queiroz

“(…) As árvores e muito especialmente as oliveiras, com a sua carga simbólica de paz e outros sentidos (adivinhados ou pressentidos), que tem a ver com a angústia e o fervor, sob a aparência de serenidade, são na sua obra a perfeição conquistada — uma gramática da pureza, do traço nu e perfeito, que se conjuga como oração. (…)” (1)

Sob a égide do naturalismo, à maneira de Silva Porto, do impressionismo ou da sua aproximação ao abstracionismo, as suas experiências plásticas fruto da sua permanente inquietude criadora, estão em constante procura da sua escrita pictural, de uma paisagem “de dentro”, como ela própria dizia.

Fernando António Baptista Pereira escreve: “(…) São poucos os pintores ocidentais que se têm mostrado sensíveis à interioridade poética da tradição do paisagismo oriental, toda ela procura da perfeição, não do que vemos ou queremos objectivamente representar da paisagem exterior, mas do efeito que esta produz no que será a paisagem interior da alma. Os estudiosos da arte do extremo oriente já por várias vezes sublinharam que o modo chinês de pintar a paisagem é equivalente ao acto de retratar um sentimento de elevação.

Ao longo destas páginas procurámos demonstrar que a pintura “de dentro” que Maria Lucília Moita sempre realizou mas principalmente aquela que nos últimos vinte e poucos anos vem apresentando, responde, de um modo faseado e na típica inquietude do seu modo de “estar no mundo”, a esse grandioso desiderato comum ao Oriente e ao Ocidente: pintar a inesgotável riqueza da paisagem interior.
Árvores queimadas, 1984. Fotografia Gaspar Queiroz

A reinvenção da paisagem na última fase da obra de Maria Lucília Moita foi, como vimos, acompanhada de uma renovação do retrato, que a pintora sempre considerou como uma forma de cartografar rostos e sentimentos, do mesmo modo que as suas paisagens são retratos de sentimentos perante a Natureza e o Mundo. Em ambos os casos, Maria Lucília reinscreve, num discurso actual e ocidental, a visão poética da pintura oriental.

De um olival, 2009. Fotografia Gaspar Queiroz

Retrato e paisagem tornam-se, assim, as duas faces mais visíveis de um modo pictórico que enlaça a sabedoria inerente às suas processualidades com os afectos e as emoções que funcionam como detonadores das próprias escolhas processuais, visando a expressão de um sentimento poético e místico sobre o Mundo.

Através das múltiplas paisagens e dos muitos retratos que desenha ou pinta Maria Lucília Moita coloca-nos perante uma paisagem interior que é feita da sua comunhão multifacetada com o Mundo, um mundo que a pintora insiste em querer ver e ler como um poema.” (2)

O universo poético de Maria Lucília Moita pode ler-se também nos poemas que publicou. A mesma gramática do essencial, da autenticidade e da inquietude.

Paula Dias


(1) Rodrigues, Urbano Tavares (2001). Catálogo da Galeria Verney. Câmara Municipal de Oeiras. Em: Maria Lucília Moita. Abrantes: Câmara Municipal de Abrantes, 2004, p.68

(2) Pereira, Fernando António Batista (2004). Recomposição e memória: a reinvenção da “paisagem interior”. A Natureza Morta e a obra actual. Em: Maria Lucília Moita. Abrantes: Câmara Municipal de Abrantes, p.128

Daniel Nave: sou eu que desenho os meus pontos de fuga

08.12.23 — 23.06.24

“Ele pensava que as cidades serviam, sobretudo, para as usarmos e não para sermos usados por elas. Usar a cidade, para ele, era a liberdade que os muitos e diversos interesses, postos lado a lado, acabavam por permitir a todos os cidadãos que quisessem viver bem.” (1)


O Homem que deseja gostar de cidades

Presumimos não cair em descuido se, na esfera das relações entre o ser-humano e o mundo natural, instalarmos a construção de uma cerca protegendo o acesso a uma caverna na classe dos mais salientes e instigantes acontecimentos exordiais. Notemos: o gesto que, por proceder da sobrevivência, ancora o ser-humano à sua natureza animal é o mesmo que, por anteceder o aglomerado artificial, inflama a desarmonia da relação. O que une a rudimentar configuração gruta-horto-muralha e o sofisticado complexo urbano é o dom e o poder com que Prometeu nos favorece.

Neste sentido, a cidade instaura um território especulativo, opera a potência fulminante de um face-a-face íntimo: o nosso confronto, enquanto ser que conhece e se conhece, com a persistência dos infatigáveis dilemas e desconcertos da nossa natureza e da nossa relação com o mundo natural. Se a arte põe-em-obra, se desvela uma verdade que instaura e torna cognoscível, o corpo de trabalho de Daniel Nave incita-nos a interrogar a criação assombrosa da cidade e, com mais fervor, o ser que a cria.

Importa debruçarmo-nos sobre a história da consumação de potências inatas e faculdades adquiridas em que nos reconhecemos enquanto animal que produz sentido. Não nos detemos na disputa antiga que opõe o internalismo da razão e o externalismo da sensação; antes, na objetificação que ambas as construções epistemológicas ditam, no acervo de negações e exclusões do mundo natural que acumulam. No longo percurso da obstinada sofisticação da nossa macchina antropologica, ter-nos-emos tornado reféns dos mundos artificiais que erguemos?

Daniel Nave não acentua a cisão. Espaços pretensamente verosímeis são desmantelados, por fragmentação e achatamento, em enredos geométricos comprimidos no constrangimento da superfície. Cenários manifestamente virtuais são insinuados por massas sólidas e compósitos vaporosos que se elevam ou afundam, restaurando a ilusão da profundidade. Num gesto de duplo efeito, o carácter vivo e temperamental da cidade é um pano de fundo sintetizado em formas e forças (2), em luminosidades e mistérios, em matérias e ambientes que demarcam regiões afetivas contrastantes; contudo, comunicantes e — quem sabe? — apaziguadas. Diríamos que, no campo da imagem, entre colapsos e perdurações, Daniel Nave concilia o rigor científico da perspetiva renascentista e o êxtase emocional da subjetividade romântica.

Se, na nossa história enquanto seres cognoscentes, no devir humano, a arte, excedendo o apetrecho, intensifica o requinte da nossa existência entre os entes inumanos, entre as coisas naturais, Daniel Nave furta-se à tendência. Na medida em que não imitam, desembaraçando-se dos saberes que codificam e das exegeses que decifram, estes desenhos e construções alojam a sua alteridade, o resto que os completa e lhes pertence, mostrando-se no mundo entre as coisas enquanto blocos puros de visibilidade, presenças brutas e ostensivas que detêm o seu fora e o seu dentro, o isto-é-em-si de mundos imaginários onde as fronteiras são pulverizadas. Diante deles, somos engolidos e projetados. Vêm tocar-nos a pele e penetrar-nos a carne e, reciprocamente, são o corpo em que nos (re)vemos. Murmurar-nos-á esta osmose a chave do segredo, o escape da existência artificial?

O eloquente silêncio dos mundos imaginários de Daniel Nave não nos desvenda o desfecho da aventura. Neste impasse, Sou eu que desenho os meus pontos de fuga abre-nos a brecha para um espaço de quatro dimensões, uma suspensão de segunda ordem que arrisca a transformação dos próprios processos ontológicos do ser cognoscente e do ser das coisas, que supera a divisão histórica entre sujeito e objeto, entre humano e inumano, entre artificial e natural. Esta constituição do ser desmorona a imobilidade do ser-que-é, reconfigurando-a no movimento do ser-que-se-dá, que se destina enquanto destinável do destinado no seio da doação mútua, do estar presente das presenças, do deixar-estar-presente. O Homem que deseja gostar de cidades é o que deixa estar presente o que não pertence à cidade. “Sem zonas demarcadas, eis a vida” (3).

Ricardo Escarduça


(1) Dias, Manuel Graça. O Homem que Gostava de Cidades. Relógio d’Água, Lisboa, 2001. (2) Apropriamo-nos, aqui, do título de uma das séries de trabalhos do artista. (3) Ibid. i).


Artista
Daniel Nave

Curadoria
Ricardo Escarduça

Coleção Luís Ferreira - Insistência ou Representação Metafórica da Premência

20.04.24 - 24.11.24

"Our name will be forgotten in time”
Obra de Bárbara Bulhão

Aquando do convite feito para a curadoria desta exposição, refleti sobre as afinidades que tenho com o colecionador Luís Ferreira e a sua coleção. Este fator não torna mais fácil a escolha e a montagem destas peças num museu, instituição por si mesmo inibidora, quando se deslocam obras de um ambiente íntimo para um ambiente público.

O título, numa exposição que tem por base uma coleção de um colecionador específico, é a tentativa de resumir e dar a conhecer a quem a visita as motivações para assim se expor, ao mostrar o que são as suas experiências quotidianas e como se refletem nas escolhas dos trabalhos e dos artistas expostos.

Não se pense que é de somenos importância a insistência, quando se abraça a vontade de colecionar. Quando a intenção é representar a metáfora em que o significado habitual de uma palavra é substituído por outro, só aplicável por comparação, a palavra premência, ou seja, o ato de exercer pressão, vem aprofundar ainda mais esta obstinação e teimosia. A insistência de Luís Ferreira, que está para além da compulsão da aquisição comum a todos os colecionadores, reflete antes de mais a urgência da obtenção da coisa, que lhe é instintiva até pelo vínculo à sua profissão, onde a premência é urgente para a obtenção de um resultado positivo. É, segundo Luís Ferreira, o ínfimo intervalo de tempo entre a vida e a morte.

A exposição de uma coleção provoca inevitavelmente a crítica e as intermináveis questões sobre o porquê desta ou daquela escolha da parte do colecionador e da curadoria. Numa primeira abordagem, alguns nem atentam nas obras, mas unicamente nos nomes dos artistas escolhidos, surgindo a comparação com outras coleções.

Apesar dos contratempos, a vontade e a necessidade de no final prestar um serviço público faz da mostra de coleções privadas uma bondade que é necessária à divulgação de artistas que bastantes vezes são rejeitados individualmente em mostras mais institucionais. Ou por serem muito jovens. Ou por falta de conhecimento. Ou por não haver vontade. Ou por não terem ainda uma legitimação dos seus pares.

“Embalar (...) é um exercício de esquecimento (…) quase insuportável” (1) para um colecionador: a falta de contacto com as obras é uma resignação impossível.

A premência de rever as obras e a expectativa da nova montagem confluem num contentamento que foi protelado. As obras estão encostadas às paredes ou estendem-se pelo chão à espera de lhes serem atribuídos lugares. Do ponto de vista do colecionador, este processo da montagem reaviva memórias dos locais onde as peças habitam. Os locais onde e como as adquiriu tornam-se um símbolo, uma recordação a partir da qual toda uma nova memória pode ser reconstruída.

Montar uma exposição é um ato criativo; como tal, as obras perdem a sua individualidade e passam a fazer parte de outra coisa. Por associação, adquirem novas identidades no conjunto.

Ao introduzir no texto do catálogo palavras e definições escritas por autores que me são caros, fui elaborando um texto à boa maneira Dada, em colagem ou assemblage, ou surrealista, com os cadavres exquis.

O movimento Dada é um dos meus eleitos. Por ter sido disruptivo, político e contestatário. Coincidindo esta exposição com as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril, e considerando que os artistas são uma peça importante para o desenvolvimento cultural e de transmudação do modo individual de pensar e julgar, rememorei o movimento Dada e daí parti para a leitura estrutural desta coleção, considerando que era pertinente e atual voltar ao princípio do século xx.

(1) Embalando a minha Biblioteca, Alberto Manguel. Outras referências: Os Limites da Interpretação, Umberto Eco, Contra a Interpretação e outros Ensaios, Susan Sontag e O Amante do Vulcão, Susan Sontag

Isabel Vaz Lopes

Artistas
Andreia Santana, Bárbara Bulhão, Carla Rebelo, Carlos Correia, Carlos Mensil, Cecília Costa, Daniela Krtsch, Didier Fiúza Faustino, Fábio Colaço, Filipe Barbosa, Francisco Venâncio, Gabriel Garcia, Hugo Canoilas, Igor Jesus, João Leonardo, João Pedro Trindade, João Pedro Vale, Mariana Gomes, Martinha Maia, Miguel Ângelo Rocha, Paulo Nozolino, Paulo Simão, Pedro Barateiro, Pedro O Novo, Pedro Vaz, Raquel Melgue, Regina Chulam, Ricardo Marcelino, Rita Ferreira, Rita GT, Rui Horta Pereira, Sara Bichão, Sara Mealha e Sofia Areal.

Curadoria
Isabel Vaz Lopes

Filipe André Alves, Relento, 2019. Papel de algodão e aço temperado. Design gráfico, Ivo Jaime © Edgar Rei

Livros de Artista #1 - Extensão da exposição da Coleção Luís Ferreira — Insistência ou Representação Metafórica da Premência

20.04.24 - 25.05.24

O conceito de estender esta exposição para a Biblioteca Municipal António Botto surge quase imediatamente a seguir à proposta da mostra da Coleção no miaa, não só pela localização da mesma, mas também porque Luís Ferreira sempre se interessou pelos pequenos objetos criados pelos artistas que nem sempre são considerados “obras de arte”, mas fazem parte do universo dos artistas.

Esta exposição de livros de artista será a primeira de três na Biblioteca António Botto com esta temática. No decurso da permanência das obras da Coleção nas salas de exposições temporárias no miaa, os artistas apresentados na exposição Coleção Luís Ferreira — Insistência ou Representação Metafórica da Premência estarão reunidos nestas mostras, com obras pertencentes à Coleção e outras por empréstimo dos artistas, num diálogo permanente com a coleção exposta no MIAA.

Nesta exposição está incluída uma obra do artista Pedro O Novo, intitulada “Cesário Verde”, um eufemismo representado pelo retrato propriamente dito e pela cor ligada ao nome do escritor. A escolha desta representação nesta exposição advém de algumas das características dos seus poemas: a descrição visual da realidade das sensações, a utilização de comparações e de metáforas. Mostrando algumas das obras deste autor pertencentes à Biblioteca António Botto faz-se a ligação do “livro comum” ao “livro de artista”, um diálogo presente desde sempre.

A Lua dava trémulas brancuras, Eu ia cada vez mais magoado; Vi um jardim com árvores escuras, Como uma jaula todo gradeado!(1)

Estarão presentes também livros de “edição independente” (por vezes, a fronteira que os separa dos livros de artista é muito ténue), incluindo tanto obras únicas como múltiplos, de formatos e tamanhos diversos, livros impressos em offset, em digital, livros inteiramente produzidos manualmente ou em cuja impressão o artista teve uma intervenção direta, acompanhados de desenhos e/ou pinturas originais, cadernos de esboços e cadernos de esquiços ou projetos para pinturas ou exposições.

Muito se tem escrito sobre o livro de artista e o seu lugar na História da Arte. Deixo aqui algumas reflexões sobre o tema, desenvolvidas por vários autores.

O conceito “Livro de Artista”

“A relação dos artistas com o livro é tão antiga como o próprio livro. Não raras vezes o livro é apenas um referente conceptual usado como suporte dum projeto artístico específico, não reduzido a papel e tinta, mas incorporando todos os tipos de materiais que o artista desejar utilizar.” (2)


José Oliveira, S/ título, 2002. Técnica mista. © Edgar Rei

Segundo vários autores, como Ludmila da Silva Ribeiro de Brito, Pavel Büchler ou Stephen Bury, o livro de artista é um objeto de arte, que não precisa de ser lido para ser compreendido.

“Além disso, os suportes tradicionais foram renovados (ou desmaterializados […]), seguindo o legado duchampiano de questionamento do objeto-arte e dos espaços institucionais, este último como agente legitimador da arte.” (3)

“É um facto: a Caixa Verde, de Marcel Duchamp (1934), é um claro livro de artista (ou, mais especificamente, livro-objeto).” (4)

“Baldessari queimaria a parte principal de suas pinturas e colocaria as cinzas numa urna com forma de livro. Por esse motivo, entre outros, ficaria posto à prova o pensamento de Walter Benjamin sobre o desaparecimento da aura da obra de arte provocada pela reprodutibilidade. A esse respeito, a reflexão benjaminiana sobre o desaparecimento da aura ligada à reprodução não mais permite entender uma situação tornada mais complexa. A sociedade contemporânea instaurou um acesso coletivo às próprias obras, favorecido por uma política de exposições bem sucedidas que as transformou em acontecimentos culturais; ora, tal “massificação da aura” é absolutamente o contrário de uma democratização da arte, uma vez que nela se perde a experiência estética em prol de uma vaga cultura artística em que o museu serve para verificar a imagem das obras-primas tornada familiar através da reprodução.” (5)

(1) VERDE, Cesário. “Noite Fechada”, Poesias Completas de Cesário Verde. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987. Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante de Língua Portuguesa www.bibvirt.futuro.usp.br A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo. Permitido o uso apenas para fins educacionais. Texto-base digitalizado por: Emerson Kamiya – São Paulo/sp.

(2) “Livros de Artista | Coleções | Biblioteca de Arte Gulbenkian”

(3) BRITTO, Ludmila da Silva Ribeiro de. A poética multimídia de Paulo Bruscky. 2009. 220 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais). Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2009. p. 134.

(4) “Livro de artista: palavra-imagem-objeto – Academia.edu”.

(5) SILVEIRA, Paulo. “Definições e indefinições do livro de artista”, A página violada: da ternura à injúria na construção do livro de artista [online]. 2.ª edição. Porto Alegre: Editora da ufrgs, 2008, pp. 25-71.

Isabel Vaz Lopes

Artistas
Álvaro Zuniga, Andreia Quelhas Lima, Antónia Brandão, ATA – Coletivo de Artistas, Benoît Rengade, Coletivo – Pavilhão 28, Coletivo LUX, Filipe André Alves, Gabriel Garcia, João Pedro Trindade, João Prates, João Tabarra, José Oliveira, Kitty Sabatier, Miguel Proença, Pedro Avelar, Rainer Maria Rilke, Rui Horta Pereira, Sofia Areal e Tanaka Shingai.

Curadoria
Isabel Vaz Lopes

Convento de São Domingos

Imóvel do século XVI que, para além da ocupação religiosa, desempenhou funções militares (quartel e hospital militar), de ensino e assume-se como espaço marcante de dinamização cultural.

Fundado originalmente noutro local, cerca do ano de 1450, o Convento de São Domingos foi transferido duas vezes até ao início do século XVI, por motivos de insalubridade dos terrenos onde estava implantado. Em 1509, o prior do convento, Frei João de São Vicente, obteve autorização para dar início à edificação de um terceiro complexo conventual na zona alta da vila, ficando este concluído em 1517.

Em 1534, D. Fernando, Infante de Portugal e Senhor de Abrantes, filho do rei D. Manuel I, nascido em Abrantes em 1507, protetor de Francisco de Holanda, foi sepultado na capela-mor do Convento de São Domingos. No mesmo ano, foram sepultados no convento três outros elementos da família real, dois filhos do Infante D. Fernando e a esposa, Infanta D. Guiomar Coutinho.

Em 1798 uma parte do complexo conventual foi cedida para aquartelar as legiões do Marquês de Alorna. Em 1801, acolheu o Regimento do Conde de Lippe, no âmbito da Guerra das Laranjas, prelúdio da Guerra Peninsular. No ano de 1810, no decurso das Invasões Francesas, uma parte do convento foi transformada em hospital militar. Alguns anos mais tarde, em 1834, com a extinção das ordens religiosas, os frades dominicanos começaram a abandonar o espaço.

O século XX ficou ainda marcado pela ocupação militar do edifício. Em 1916, daqui foram mobilizadas tropas do 2.º Batalhão do Regimento de Infantaria 22 para integrarem o Corpo Expedicionário Português, que partiu para a I Guerra Mundial no início de 1917. O Regimento de Infantaria 2 instalou-se no antigo convento em 1918, tendo aqui permanecido até ser transferido para Vale de Roubam, ainda que tenha continuado a ocupar as instalações por mais alguns anos.

Daqui em diante, o edifício teve essencialmente funções educativas e culturais. Em 1968, estabeleceu-se aqui o Ciclo Preparatório de Abrantes, aquando da sua inauguração. Em 1970/71, desenvolveram-se no edifício múltiplos eventos no âmbito das duas edições das Jornadas Culturais. Ainda em 1971, esteve patente no antigo convento a exposição sobre pintura portuguesa do século XVI intitulada “Mestres de Abrantes e Sardoal”, inaugurada pelo Presidente da República Américo Tomás. Em 1983, instalaram-se no edifício a Biblioteca Fixa n.º 134, da Fundação Calouste Gulbenkian, e o Arquivo Histórico Municipal. Dez anos depois, em 1993, abriu a Biblioteca Municipal António Botto, projeto do arquiteto Duarte Castel-Branco. No ano de 1995, a Palha de Abrantes – Associação de Desenvolvimento Cultural foi constituída no antigo convento e aqui teve as suas primeiras instalações. O edifício acolheu ainda o Jardim de Infância de S. João Baptista, a Universidade Internacional e algumas salas e laboratórios da ESTA – Escola Superior de Tecnologia de Abrantes.

As escavações arqueológicas que decorreram no decurso da requalificação que visava a instalação do MIAA, projeto do arquiteto Carrilho da Graça, puseram a descoberto vários vãos, vestígios das estruturas mais antigas do primitivo convento. Também se encontrou grande parte da necrópole e áreas de armazenamento de alimentos, com um silo e uma talha, posteriormente utilizada como ossário, tudo do século XVI.

O MIAA – Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes foi inaugurado a 8 de dezembro de 2021, ocupando parte significativa do antigo Convento de S. Domingos.


Ver no Google Maps contactos T 241 330 103
E museusdeabrantes@cm-abrantes.pt

Horário de Funcionamento

Terça-feira a domingo das 10:00 - 12:30 e 14:00 - 17:30. Encerra à segunda-feira e feriados (exceto 14 de junho). Última entrada 30 minutos antes do encerramento.

Visitas Orientadas e Serviços Educativos.(marcação prévia com antecedência mínima de 15 dias para museusdeabrantes@cm-abrantes.pt)

Preçário

Morada

Jardim da República, 25, 2200-343 Abrantes.
Coordenadas GPS: 39º27’38.6’’N / 8º11’50.7’’W

Mapa

Ver no Google Maps