06.12.25 - 17.05.26
A talha como arquétipo: do tempo ancestral à reinvenção no presente pelo coletivo Cerâmica XL
O conjunto das obras apresentadas pelo grupo de artistas Cerâmicas XL situa-se nas fronteiras entre a cerâmica e a escultura, sendo comum a todos o sábio uso do barro e a reapropriação da forma das talhas.
As talhas são utensílios ancestrais que acompanham a humanidade nos seus gestos e costumes desde o VI milénio a.C. Aliás, as ânforas e as talhas foram introduzidas na península pelos fenícios, os gregos e posteriormente os romanos. Tratando-se de grandes potes de barro, as talhas estão naturalmente associadas à produção de um vinho, o vinho da talha, sobretudo na região do Alentejo, embora tenham servido outrora para guardar azeite e outros alimentos.
As talhas em barro fazem ainda hoje parte da nossa cultura e património; existem oleiros que continuam a produzir estes objetos, e que, de forma resistente, não permitem o desaparecimento desta tradição. Coadjuvando este sentido, o projeto artístico deste grupo, onde está envolvido um oleiro, é um sinal de revitalização da tradição, através de um reposicionamento da talha como forma-arquétipo.
Carlos Ribeiro, Diogo Rosa, Elsa Gonçalves, Fernando Sarmento, Heitor Figueiredo, Izilda Gallo, Maya Kempe, Sandra Borges, Stefania Barale e Virgínia Fróis produziram peças na Cerâmica da Asseiceira utilizando engobes, ou outros materiais e objetos, como arames, fio, madeira, cana e fibras vegetais, copo de vidro e livro, propondo a reformulação da talha tradicional numa peça com valor artesanal e artístico, ou seja, fundindo estas duas dimensões numa só.
Esta vontade de jogo formal e onírico tomando como ponto de partida a talha em barro varia profundamente entre os artistas, indo buscar fecundidade ao imaginário de cada um, de acordo com a sua linha de trabalho e de investigação.
Podemos afirmar que o conjunto de artistas utiliza a talha em barro e a sua forma transformando-a e ligando-a a costumes e tradições, como o brincar com um ioiô (Virgínia Fróis), remeter aos tabuleiros das festas de Tomar (Stefania Barale), ou apenas recriá-la criando uma figura feminina (Maya Kemp), ou um sempre-em-pé (Diogo Rosa). Outros evocam na construção e desconstrução da forma matricial da talha referências aos elementos naturais (Fernando Sarmento, Sandra Borges, Izilda Gallo). Encontramos ainda propostas de reinterpretação para a forma original da talha com base na plasticidade, no desenvolver de uma ideia, de um pensamento, ou mesmo um método (Carlos Ribeiro, Elsa Gonçalves), por vezes redimensionando a prática atual à luz de procedimentos neodadaístas (Heitor).
Acresce ainda a este conjunto de artistas e obras o interessante núcleo de fotografias de Filipa Scarpa, que, quais naturezas mortas, trazem até nós o ambiente do atelier, da oficina onde o barro se transforma em talha e objeto artístico. De notar ainda a participação do oleiro José Miguel Figueiredo com a sua reprodução de talhas de azeite, contribuindo para que estas não sejam apenas memória, mas continuem a ser vida.
Cristina Azevedo Tavares, Colares, agosto de 2025
Originalmente publicado em Cerâmica XL (catálogo de exposição), Convento de Cristo de Tomar, ed. Município de Tomar, 2025
Artistas
Carlos Ribeiro, Diogo Rosa, Elsa Gonçalves, Fernando Sarmento, Heitor Figueiredo, Izilda Gallo, Maya Kempe, Sandra Borges, Stefania Barale, Virgínia Fróis
Fotografia
Ana Filipa Scarpa
Olaria
José Miguel Figueiredo
Exposições realizadas no MIAA - Museu Ibérico de Arqueologia e Arte:
2021
2022
2023
2024
2025
Horário de Funcionamento
Terça-feira a domingo das 10:00 - 12:30 e 14:00 - 17:30. Encerra à segunda-feira e feriados (exceto 14 de junho). Última entrada 30 minutos antes do encerramento.
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